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Cursos de Marinheiro e de Patrao Local Imprimir e-mail
Escrito por G.I. Clube Naval da Horta   
03-Set-2008
Curso Marinheiro na HortaCom esta iniciativa do Clube Naval da Horta todos ficam a ganhar: o Faial e as pessoas ligadas ao mar

 

Estão a decorrer em paralelo, no Centro de Formação de Navegadores do Clube Naval da Horta, dois Cursos: um de Marinheiro e outro de Patrão Local.

 

O primeiro começou no dia 11 de Agosto último, sendo as aulas dadas às segundas e terças-feiras, e o segundo arrancou no dia 13 do mesmo mês, sendo ministrado às quintas e sextas.

 

As aulas práticas de ambos os Cursos – que terminam no fim deste mês - decorrem ao sábado, altura em que os formandos testam os conhecimentos teóricos assimilados durante a semana.

 

O Curso de Marinheiro conta com 12 formandos e o de Patrão Local com 8, mas já existem inscritos em lista de espera para próximas edições destes mesmos Cursos. Há, também, a possibilidade de virem a ser dados outros níveis, como Patrão de Alto Mar.Mendonça das Neves

 

O coordenador pedagógico é Mendonça das Neves, que nesta entrevista explica os meandros destes dois Cursos, os quais são uma iniciativa do Clube Naval da Horta que vem, assim, corresponder às necessidades de muitos sócios e não sócios, amantes dos desportos náuticos.

 

 

- Os formandos demonstram interesse?

- Há um interesse incontornável das pessoas por este tipo de Curso, porque isto é uma ilha. As pessoas estão ligadas ao mar. Cada vez mais há uma apetência generalizada pelos desportos marítimos, pela náutica de recreio. Acho que isso é saudável.

A Marina da Horta tem apanágio de ser internacional, e eu espero que seja ampliada, porque é muito pequena para a quantidade de veleiros que por aqui passa.

 

- Revelam já ter conhecimentos?

- A maior parte deles já tem conhecimentos destas áreas. Aliás, um deles – com cerca de 50 anos – sempre andou no mar, mas não tinha carta. E agora quer aumentar os seus conhecimentos, o que acho espantoso. Ele próprio me disse que andava sempre com alguém ou, às vezes, infractor.

É bom as pessoas irem para o mar com a devida formação para que as coisas não corram mal. Costuma-se dizer que quem vai para o mar avia-se em terra, e é isso que eu tento mostrar aos formandos, no sentido de que a segurança é um aspecto essencial.

 

- É a primeira vez que ministra este tipo de Curso?

- No âmbito da náutica de recreio, sim, mas já dei Cursos na minha área específica – Militar Naval – quer na área de Táctica, quer de Direito Internacional Marítimo.

Nesta parte da náutica de recreio, é fundamental a questão do Regulamento Internacional para Evitar Albaroamentos no Mar (RIEAM), as questões da segurança, a meteorologia, as marés, tudo isto está relacionado com a navegação e, como Oficial de Marinha, tenho obrigação de saber.

Aliás, acho que é uma mais-valia para o Clube Naval da Horta, ter uma pessoa com a minha experiência a dar esta formação. Além do mais, já fui Comandante de Unidade Naval. Portanto, entendo que não há razão nenhuma para as pessoas ponham em causa o formador ou duvidem da experiência do mesmo. Há uns marinheiros de água doce, mas não é o meu caso. Sou de água salgada, embora actualmente esteja em terra, pois sou Director da Estação Radionaval da Horta. Mas não deixo de ter ligação ao mar.

 

- A matéria é complicada?

- A matéria não é complexa mas, sim, muito densa. É muita terminologia e a terminologia naval é bastante específica.

Os formandos sabem, mas se não estudarem dia-a-dia, no dia seguinte não conseguem acompanhar. Tem de ser um estudo contínuo.

Tento simplificar ao máximo a terminologia e dar exemplos concretos. Aquilo que eu reparo, é que há um interesse generalizado, e as pessoas aprendem muito nas aulas práticas. Naturalmente que fico muito satisfeito quando as pessoas aprendem aquilo que lhes transmito.

 

- Como são as notas finais?

- Cada um tem de ter pelo menos 12 valores na parte teórica.

Na prática, é Apto ou Inapto. Mas aqui há partes do exame em que têm de ter uma classificação superior a 75 por cento, que é o caso do Regulamento Internacional para Evitar Abalroamentos no Mar e tudo o que esteja relacionado com a segurança.

O que eu entendo é que as pessoas têm que ficar sensibilizadas para a parte da segurança. E estão.

Ir para o mar não é o mesmo que ir a pé até aos Capelinhos. Quando se vai para o mar, deve-se ir bem preparado. É preciso ter em atenção as condições meteorológicas, preparar a embarcação, os meios de salvação, etc. Há que ter um conjunto de procedimentos relativamente à questão de náutica de recreio, porque o mar é um meio hostil. Fomos feitos para andar em terra e não no mar. Mas como bons homens e mulheres que somos, temos uma grande capacidade de adaptação às condições adversas e, portanto, vamos para lá, e enfrentamos um meio hostil.

Oitenta por cento dos acidentes que acontecem no mar, são provocados por erros humanos. E nesses casos, a maior parte da informação está disponível, só que não é utilizada, o que não é compreensível. Eu alerto sempre para a questão de segurança, para que não haja qualquer tipo de tragédia.

As pessoas podem divertir-se e serem competitivas, mas dentro dos limites.

Numa situação de emergência não podem pensar muito no que vão fazer, ou seja, não pode haver dúvidas. Já devem saber como agir.

 

- Um marinheiro faz-se em terra e no mar...

- Um marinheiro só se faz com experiência no mar e convivendo com outros marinheiros experientes. Só sou marinheiro porque naveguei muito. Tenho mais de 8 mil horas de navegação. É preciso estar muito tempo no mar para chegar a este patamar.

Conta muito a experiência. Só sei aquilo que sei, porque fui para o mar. Porque se eu soubesse muito na teoria, mas depois não pusesse em prática, não sabia nada. Uma coisa sem a outra não dá nada.

Somando o bom senso, a experiência, os conhecimentos e a segurança, chegamos sempre a bom porto.

Estive na América, na África, no Norte da Europa e já apanhei muito mau mar, mas o pior foi aqui nos Açores. Não tenho medo do mar, mas respeito-o. Defendo sempre que os regulamentos são para cumprir, pois sei que, é quando está muito bom tempo, que acontecem os acidentes no mar, porque estamos relaxados. Há um adágio popular que diz: “Mar banzeiro, acautela-te marinheiro”, ou seja, mar calmo, põe-te a pau.

Mas actualmente existem meios para tudo. Por isso, não há razão nenhuma para que as coisas más aconteçam.

 

- O que acha da segurança que tem visto por aqui?

- Na Semana do Mar, durante uma prova, houve um bote baleeiro que revirou e noutro caso, o mastro partiu-se. São situações perfeitamente normais, mas controláveis, porque houve apoio imediato. Havia assistência e embarcações a acompanhar. Se as coisas forem feitas com preparação, resolvem-se rapidamente.

A Corveta esteve aí e não foi para show-off, mas sim, para aumentar a segurança. Azares podem acontecer a qualquer momento, mas quando as coisas são preparadas com antecedência, calma e serenidade – como foi o caso – tudo se resolve prontamente. Reparei que houve, por parte do Clube Naval da Horta, um comportamento exemplar, e isso é muito importante. 

 

- Com segurança ficamos todos a ganhar.

- Sem dúvida, e esta iniciativa do Clube Naval da Horta é fundamental nesse campo. Com estes Cursos o Faial fica a ganhar, bem como os formandos que passam a dominar estas matérias, muitas das quais são transversais, mas o saber não ocupa espaço.

A questão do mar tem muito de sensbilidade e de bom senso e, se cada um der o seu contributo na náutica de recreio, chegamos lá, porque é um trabalho de equipa.

 

 

 

 
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